Soja SH27 testa novamente a resistência
EL NIÑO GANHA FORÇA E AMPLIA OS RISCOS CLIMÁTICOS PARA A SAFRA 2026/27
O El Niño já está estabelecido e começa a influenciar de forma mais evidente o padrão climático no Brasil. As chuvas excessivas registradas no Rio Grande do Sul, os temporais que avançaram pelo Sudeste, os episódios de precipitação no interior de São Paulo e a ocorrência de chuva em áreas do Centro-Oeste e do Matopiba durante julho são sinais compatíveis com a atuação do fenômeno.
O aquecimento do Oceano Pacífico Equatorial permanece bastante expressivo. As anomalias de temperatura da superfície do mar seguem positivas em todas as principais regiões de monitoramento, desde a faixa Niño 1+2 até a Niño 3.4. Nesta última, os valores se aproximam de 2°C acima da média, nível considerado muito elevado para esta época do ano e sem precedentes semelhantes na série histórica recente apresentada.


Além do aquecimento oceânico, a atmosfera já demonstra resposta ao fenômeno. O Índice de Oscilação Sul, calculado a partir da diferença de pressão entre Darwin e Taiti, encontra-se em configuração compatível com El Niño desde meados de abril. Isso indica que não se trata apenas de um aquecimento isolado do Pacífico, mas de um sistema oceano-atmosfera já acoplado e capaz de produzir efeitos sobre a circulação global.
A presença de áreas pontuais de água mais fria no Pacífico não invalida a configuração atual. Comparações com episódios anteriores mostram que anos como 2015/16 e 2023/24 também apresentavam núcleos frios em determinadas regiões do oceano durante julho, sem impedir a consolidação de eventos fortes. Em 2015/16, inclusive, a presença dessas águas frias era mais ampla do que a observada atualmente.
As projeções continuam apontando para um El Niño de forte intensidade. Embora algumas rodadas isoladas indiquem anomalias próximas de 4°C, a média dos conjuntos de modelos, considerando diferentes simulações e ponderações, concentra o fenômeno entre 2,5°C e 3°C. Esse intervalo já seria suficiente para enquadrá-lo entre os episódios mais intensos da série histórica, ainda que o termo “super El Niño” não seja uma classificação técnica oficial.

Do ponto de vista climático, a intensidade exata do pico não altera substancialmente os principais riscos associados ao fenômeno. O padrão esperado inclui chuvas acima da média na Região Sul, maior frequência de temporais, períodos de excesso de umidade e possibilidade de novos problemas com alagamentos, erosão, doenças e dificuldades operacionais no campo. Ao mesmo tempo, aumenta o risco de períodos de estiagem sobre o Cerrado, especialmente entre o final da primavera e o verão, atingindo áreas do Centro-Oeste, Sudeste e Norte do país.
Outro impacto relevante será a manutenção de temperaturas elevadas. Anos de El Niño forte, como 1982/83, 1997/98 e 2015/16, foram marcados por calor acima da média em diferentes regiões. Para a safra 2026/27, o risco não estará apenas na distribuição irregular das chuvas, mas também na combinação entre veranicos e temperaturas muito altas, condição capaz de ampliar a perda de umidade do solo e aumentar o estresse sobre as culturas.
É importante destacar que o El Niño não provoca seca imediata no Cerrado durante todo o ano. Em muitos casos, o fenômeno antecipa o retorno das chuvas entre o fim do inverno e o início da primavera. Por isso, precipitações precoces no Centro-Oeste não contradizem sua presença. O padrão mais comum envolve começo antecipado da estação chuvosa, alternância com períodos de irregularidade e redução mais precoce das precipitações no final do ciclo.
Assim, o retorno antecipado das chuvas sobre Mato Grosso, Goiás, Minas Gerais e outras áreas do Brasil Central pode ocorrer ainda entre agosto e setembro. No entanto, isso não elimina o risco de interrupções posteriores, principalmente durante o verão. Cada região responderá de forma diferente, de acordo com o posicionamento dos corredores de umidade, a atuação dos bloqueios atmosféricos e a frequência das frentes frias.
O cenário exige acompanhamento próximo ao longo dos próximos meses. O El Niño já influencia o clima, deverá alcançar forte intensidade e tende a produzir efeitos relevantes sobre a distribuição das chuvas, as temperaturas e o calendário agrícola da safra 2026/27. No Sul, o risco principal permanece associado ao excesso de precipitação. No Cerrado, a atenção se volta para a irregularidade e para possíveis períodos de calor e estiagem durante as fases mais sensíveis das lavouras.