Áudio com informações da abertura do dia no Agronegócio
Destaques:
- Ativos brasileiros sofrendo
- Reconhecimento das eleições
- Impactos para o agro
Primeiras reações do resultado das eleições são péssimas: Futuros do Real na CME caindo 10% (câmbio acima de 5.58). O ETF do Brasil (EWZ) chegou a cair 17%. Entre o primeiro e o segundo turno, o Ibovespa subiu mais de 7% e o real valorizou ~5% - vai devolver tudo e mais um pouco. A curva de juros precificou maior disciplina fiscal – taxas longas caíram e a curva inverteu forte. O real deve sofrer mais, porque concentra a desmonte de posições. Os juros longos devem voltar a abrir. Sou muito cético com relação a um posicionamento de maior responsabilidade fiscal dessa turma – afinal, quem acredita nisso? Se a curva voltar a empinar, a rolagem do câmbio sobe e o spot vai junto. O spot vai concentrar a volatilidade, mas é na curva de juros que o grosso do ajuste vai se concentrar.
Ações domésticas como bancos, varejo, construção, small caps e infraestrutura devem devolver parte importante do rally eleitoral. O mercado vai assumir cortes na Selic bem menores. As estatais serão as mais penalizadas. Petrobras, Banco do Brasil e empresas sujeitas à intervenção carregam os maiores descontos. Exportadores como Vale, Suzano, frigoríficos e exportadores agrícolas podem ter alguma proteção pelo câmbio mais alto.
Atenção ao diesel: Passada as eleições o ajuste vai vir a cavalo. O Lula está segurando o preço do diesel com subvenções – mais de R$ 3,5. Não tem espaço no orçamento para 2027. Como dizem os políticos, todo ajuste ruim deve ser feito no 1º ano – ninguém vai lembrar. O diesel da Petro está R$ 3,5 abaixo da PPI. O Goldman falou na semana passada do risco de um forte ajuste pós eleições. Eu diria que tem uma grande chance. Concentração de plantio da soja, de colheita e forte ajuste do diesel. Fretes rodoviários e os contratos com as ferrovias terão forte ajuste. A ANTT calcula piso mínimo de frete usando o S10 a R$7,33/l. Um aumento de R$1,50/l representaria +20% na bomba. O diesel representa 30%–40% do custo do transporte rodoviário. O impacto direto no custo do frete seria de aproximadamente 7%, fora a falta de caminhões, filas, retorno de vazios e disputa entre corredores.
Depois do primeiro choque, o mercado vai olhar três coisas: ministro da Fazenda, orçamento de 2027 e relação com o Congresso – o congresso mais pró-direita que já tivemos. A equipe de Lula fala em superávit primário de aproximadamente 1,3% do PIB em 2030, mas ainda não mostrou como chegar lá com dívida acima de 82% do PIB e grande parcela da despesa obrigatória e Selic alta – quase 50% dos títulos já são indexados à Selic. Se a Selic não cair, o rombo vai continuar subindo muito rápido – a conta juros já se aproxima de 10% do PIB.
O que os jornais externos estão dizendo: Uma grande surpresa e contestação de Flávio Bolsonaro, pedindo anulação devido à extensão nacional de duas horas. Baixa Governabilidade: Lula venceu a Presidência, mas terá de governar com um Congresso muito mais direita. A contestação tem potencial político, mas parece juridicamente fraca. Flávio perdeu por mais de 4 milhões de votos e sua própria campanha também havia solicitado extensão, embora por outro motivo — as chuvas no Sul. A Reuters fala em interrupção da onda eleitoral de direita na América Latina e destaca o risco de protestos e conflito institucional. A AP interpreta o resultado como manutenção de uma política externa brasileira mais afastada dos EUA. O Washington Post fala do revés para o bloco regional alinhado ao Trump. Vai ser importante acompanhar o que o Trump vai falar das eleições e quanto tempo vai levar para reconhecer o resultado.
No domingo, Trump disse apenas que estava acompanhando a eleição — “We are watching” — sem endossar nenhum candidato. Donald Trump Jr. questionou publicamente a extensão da votação. Na contra mão, Bernie Sanders, Ro Khanna, Gavin Newsom e outros democratas americanos reconheceram e comemoraram a vitória, mas eles não falam pelo governo federal. O silêncio não é inteiramente casual. Antes da eleição, o Departamento de Estado e a embaixada americana não responderam se reconheceriam o vencedor certificado pelo TSE. Diplomatas em Brasília já discutiam reconhecimento rápido justamente para impedir que uma contestação externa alimentasse uma crise interna.
Qual seria o impacto de uma demora no reconhecimento dos EUA?
O que o TSE faria? Vamos lembrar das eleições de 2022. O PL pediu uma “verificação extraordinária” e a anulação dos votos do segundo turno registrados em cinco modelos antigos de urnas. O argumento era que os logs dessas urnas supostamente não permitiam identificar individualmente cada equipamento. Alexandre de Moraes deu 24 horas para o PL incluir também o primeiro turno. A lógica era simples: as mesmas urnas haviam sido usadas nos dois turnos. Não seria possível dizer que eram imprestáveis apenas no segundo turno, quando Bolsonaro perdeu, mas válidas no primeiro, quando o PL elegeu governadores, senadores e deputados. Moraes classificou a ação como de má-fé e aplicou multa de R$22,9 milhões ao partido. Depois, o plenário do TSE confirmou a decisão. Houve bloqueio de recursos do Fundo Partidário até a quitação da multa.
O que o mercado pode precificar de curto prazo: Trump poderia aumentar tarifas, sanções, vistos ou negociações comerciais. Se Europa, Canadá e América Latina reconhecerem rapidamente Lula, um eventual não reconhecimento americano ficaria relativamente isolado e o dano seria mais bilateral que sistêmico. Países que já reconheceram: Canadá, México, Chile, Peru, Equador, Paraguai, Uruguai, Bolívia, Panamá e Cuba. A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, reconheceu o resultado e afirmou que Europa e Brasil continuarão trabalhando juntos em comércio, clima e multilateralismo.
Minha opinião: O Brasil é tão importante para os EUA como os EUA para o Brasil. Não é só o café, carne, madeira e suco de laranja. O mais importante eu diria são outras questões que vão além.
- Terras raras. Falam que o Brasil possui ~21 Mi t em reservas, 23% das reservas do mundo. O Brasil produz e processa muito pouco. Os EUA precisam construir uma cadeia alternativa ao domínio chinês sobre separação, refino e fabricação de ímãs. A China controla mais de 90% do processamento mundial. O fornecimento tem sido sempre o primeiro ponto de verificação do acordo com os EUA. Irão se encontrar novamente em janeiro, e o principal ponto vai ser esse novamente.
- Reaproximação com a Rússia. Até onde os EUA estão dispostos a ir para garantir energia e recursos estratégicos. O acordo para voltar a receber diesel russo não deve ser visto isoladamente. Trump suspendeu parte das sanções, pressionou a Ucrânia para interromper ataques às refinarias russas e voltou a abrir espaço para alguma cooperação econômica. A Rússia falou explicitamente em ampliar a relação para energia, minerais e investimentos. Ainda é uma proposta russa, não um acordo fechado, mas mostra a direção das conversas recentes. Depois de 4 anos tentando isolar economicamente a Rússia, os EUA começam a negociar diretamente combustível, alívio de sanções e uma possível reintegração ao comércio internacional. Uma grande surpresa seria a Rússia voltar a ter acesso ao SWIFT. Além do diesel tem petróleo, gás, urânio, metais, minerais críticos, acesso ao Ártico. Fora isso, a balança Rússia-China pode mudar um pouco. Não é por acaso que na semana passada, logo depois dos anúncios do Trump de compra de diesel russo, China e Rússia assinaram mais acordos de cooperação. Nessa semana Kim Jong-Un está na China. A Rússia possui recursos, os EUA possuem capital, tecnologia e precisam de mais fornecedores – isso mudaria a mesa de negociação com a China.
Na minha opinião, seria incoerente transformar divergências políticas com Brasília em ruptura econômica. O Brasil é uma alternativa muito menos problemática para diversificar o fornecimento de terras raras e minerais críticos. Além das reservas, oferece estabilidade territorial, proximidade com o Atlântico, relações históricas com o Ocidente e ausência de conflito militar – menor custo de capital político. Caso os EUA se afastem, a China tem capital, demanda, tecnologia de processamento, além da sua disposição para ocupar esse espaço – comércio do Sul.